Wednesday, May 17, 2006

Poeta Castrado.Não!

“Poeta Castrado Não!” – Era assim que José Carlos Ary dos Santos se auto-denominava. “Um poeta de combate, disparate, fulgurante demais para alguns olhos”.

Ao recordar o seu nome, a imagem que surge é a do Festival da Canção já que com os seus poemas para canções sagrou-se vencedor por várias vezes. Daí que seja natural que as recordações que a maior parte das pessoas têm sobre si estejam associadas à música.

Contudo, a vida e o legado cultural de Ary vai muito além disso. Ary foi um poeta que tirou partido da sua capacidade de escrita para intervir nos vários sectores da sociedade. A política foi aquele ao qual dedicou a maior parte do seu tempo muito embora a sua antologia poética inclua vários poemas onde é notório um cunho amoroso implícito. A perda prematura da mãe (faleceu quando Ary era ainda adolescente) pode ser considerada um factor decisivo para tal “inclinação”.
Ary dos Santos pertencia a um meio privilegiado, a burguesia, mas isso não foi sinónimo de felicidade e tranquilidade.

A vida que levou pautou-se pela instabilidade (da qual a parte familiar não foi adjuvante para o seu equilíbrio).

No entanto, essa mesma instabilidade não foi só causada pelo meio que o rodeava, pelas pessoas que com ele conviviam e contribuiam para a sua formação como pessoa. A crise que atormentava o seu interior foi, em grande parte, fruto do seu temperamento combativo.

Na época em que viveu, Portugal estava sob a sombra de um regime ditatorial – o Estado Novo. E Ary dos Santos, apesar de ter a possibilidade de permanecer do lado dos mais fortes, optou por se juntar ao povo e lutar a seu lado contra uma situação insustentável.

É aí que entra a sua poesia. Cada estrofe, cada verso, servia para mostrar a raiva que sentia pela liberdade estar amordaçada, o povo entregue à miséria e os destinos do país nas mãos de homens que prendiam, torturavam, matavam.

Com os poemas que escreveu, Ary retratou na perfeição o regime e incitou o povo à mudança. Muitos queriam falar mas o medo era maior do que qualquer tentativa tímida de insurreição. Era preciso alguém que incentivasse os mais fracos a ganhar coragem, porque afinal de contas “a união faz a força” e “é o povo quem mais ordena”. Esse papel cabia aos intelectuais, aos que tinham consciência de que não bastava ter na mente o desejo latente de revolta (nem sequer podiam pronunciá-lo tal era a repressão), era necessário “gritar em conjunto”.Ary fez parte desse grupo de autores que contribuiu para a chamada escrita politizada, em que ousaram inovar.

Nem mesmo os “camaradas” que lutavam tal como ele e que, tendo menor sorte, acabaram por morrer às mãos da PIDE, foram esquecidos.

“Homem é quem tombando apavorado
Dá o sangue ao futuro e fica ileso
Pois lutando apagado morre aceso”

A sua ânsia revolucionária, o seu gérmen de opositor podem explicar o facto de em 1969 se ter filiado no Partido Comunista Português, o grande antagonista do regime.

Para os comunistas a ditadura deveria cair porque todos somos iguais e como tal, todos deveriam “caminhar lado a lado” e não muitos sob o comando de poucos como acontecia.

Essa ligação ao comunismo também não passou ao lado da sua escrita. Por diversas vezes, fez poemas em que exaltava os valores em que acreditavam e afirmava a razão pela qual “cada vez eram mais”. A relação e o amor ao comunismo era tão forte ao ponto de lhe ter deixado em testamento a maior parte dos bens que possuía.

À data da sua morte estava a preparar uma nova colecção de poemas. Não teve tempo para terminá-los mas teve, pelo menos, oportunidade de deixar uma obra que torna o seu nome irrefutável na história literária portuguesa. Mesmo que o escondam (sejamos sinceros, quantos conhecem a “profundidade” de Ary?), a verdade é que ele permanecerá como um dos grandes.

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