Monday, October 30, 2006

Jornalismo cidadão

O jornalismo faz parte das nossas vidas. Onde quer que estejamos, o que quer que façamos, estaremos a escrever uma página da História, mesmo que seja somente “a nossa história”.

Falar da História do jornalismo não faria sentido se não abordássemos a História da Comunicação. Recuando no tempo, à altura mais remota que possamos supor, o Homem começou a comunicar a partir do momento em que expressou as suas vivências. Com a fala, principiou todo um processo comunicativo, de partilha de ideias e interesse pelas novidades que os nossos antepassados estariam longe de imaginar.

Ao longo de milhares de anos o Homem evoluiu, aperfeiçoou-se, aumentou o seu interesse por si e pelo mundo que o rodeia; aumentou o desejo de saber mais e melhor, de saber o que se passa onde, quando, como e porquê.

Hoje, e já perspectivando uma sociedade profusamente cibernética, falamos da Era Digital. A Internet, inicialmente criada para fins estratégicos, invadiu a vida de milhões de pessoas e tem alterado a par e passo a forma como o mundo evolui.
A Internet veio abrir caminho para a tão falada “aldeia global” de McLuhan.

Usada para trocar informação ou tão só para estabelecer relações de amizade, a verdade é que esta ferramenta (se é que assim lhe podemos chamar), revolucionou os moldes comunicacionais a que estávamos habituados.

Mais do que isso, a Internet veio despoletar um fenómeno crescente que certamente estaria por esta altura ainda adormecido se não existissem as novas tecnologias. Falo, em particular, do jornalismo cidadão.

O modelo emissor-receptor em que a “moldura humana” esperava passivamente pela informação, começa a dar lugar a um esquema comunicacional recíproco, com os cidadãos a tornarem-se num agente interventivo.

Jornalistas, estudiosos ou simples anónimos envolvem-se agora numa discussão sobre o aparecimento deste conceito de citizen journalism e sobre as implicações que o seu desenvolvimento pode vir a ter.

Antes de mais, a questão que se impõe é: como é que a sociedade, até há bem pouco tempo encarada como um corpo fluido, assume um novo papel no modo como a informação é produzida?

Apesar deste crescendo de preponderância do cidadão comum, poder-se-á falar efectivamente de um jornalismo cidadão?

Estará o jornalismo da velha guarda disposto a abdicar do seu tradicional papel?

São já vários os que tentam responder a estas e outras questões.
Para alguns estudiosos, a participação dos cidadãos no jornalismo é ainda irrelevante do ponto de vista da valorização de conteúdos.

Mesmo tendo à sua disposição, meios para intervir, as pessoas continuam a optar pela atitude do “sentado no sofá”, à espera que as novidades cheguem até si. O que fazem depois? Criticam. Assumem-se como críticos do trabalho que é produzido; como revisores prontos a apontar o dedo.

Numa sociedade cada vez mais mediatizada e ofuscada pelo sensacionalismo e fait-divers, ao cidadão comum interessa encontrar uma forma de julgar.

Partir ele próprio “à procura do acontecimento” seria uma tarefa demasiado trabalhosa.
Até que perceba que pode usar as novas ferramentas para algo mais vasto e enriquecedor do que um simples “isto é uma vergonha”, tem todo um caminho a desbravar.

Segundo Lemann, “o jornalismo dos cidadãos ainda é um boletim de paróquia, com conteúdo dos Media que criticam”.

No entanto, para uma longa corrente, acontece exactamente o oposto. Os cidadãos deixaram de ser participantes a posteriori para serem voz activa a priori.

A proliferação de conteúdos Web ou a criação de blogues conferiram, “a quem está em casa”, a oportunidade de dar a conhecer o que sabe, o que pensa, o que vive.

Mesmo que nem tudo seja notícia ou passível de percorrer o horizonte como tal, o cidadão tem o direito e até o dever de contribuir para uma maior diversidade e veracidade de conteúdos.

Se por um lado a Internet (falando neste caso concreto) ajuda à difusão a um escala global; por outro, este choque tecnológico tem conduzido a uma vida cada vez mais complexa. Paulatinamente, torna-se impossível ao jornalista estar à hora exacta, no local certo, em qualquer parte a cobrir o acontecimento x, y ou z. Poder-se-á pensar que freelancers ou correspondentes são suficientes. Mas não estará o cidadão que acaba de ver um acidente à sua frente, mais do que ninguém, preparado e munido das ferramentas necessárias para relatar o que aconteceu?

Dan Gillmor, na obra Nós, os Media, lança-nos uma análise sobre o jornalismo cidadão.
Gillmor usa a metáfora do orador-plateia para dizer que o jornalismo cidadão transforma a expressão da informação num diálogo, numa troca.

“O antigo público tem o papel mais importante nesta nova era: os cidadãos têm de ser utentes activos das notícias, não meros consumidores”. “Tem de exigir melhor e tomar parte numa conversa mais alargada”.

Acontecimentos como os atentados ao World Trade Center, o tsunami na Indonésia ou os atentados no metro de Londres só vêm comprovar a importância das pessoas, dos que vivem na primeira pessoa o acontecimento, dos que estão literalmente “em cima do acontecimento”.

Gillmor fala-nos, também, de outros casos. Um deles reporta-nos para um país tão em voga nos últimos tempos – o Irão.
Como é sabido, este país, até pela sua própria localização geográfica, segue um conjunto de “princípios” orientais. Liberdade de pensamento ou de expressão são direitos amordaçados em território iraniano. Todavia e porque em qualquer ditadura há revelias (mesmo que ocultas), o povo iraniano encontrou, também ele, na Internet e nos blogues uma forma de expressar-se.
Actualmente, existe o chamado persianblog que constitui uma verdadeira fuga de um povo oprimido. Através das novas tecnologias, o controlo sobre os media torna-se mais difícil de garantir.

Porém, o poder tecnológico vai para além da liberdade de expressão dentro do país. A explosão da blogosfera abriu as portas do Irão ao resto do Mundo.
Gillmor fala-nos precisamente disso. “A 10 de Dezembro de 2003, milhares de iraquianos marcharam pelas ruas de Bagdad para protestar contra as bombas colocadas pelos insurrectos”. A partir daí, em diferentes blogues, os próprios iranianos começaram a relatar os acontecimentos e o seu quotidiano, destacando-se particularmente Zeyad. Zeyad explicava de forma tão perceptível o que presenciava ao ponto de muitas pessoas consultarem o seu blogue antes mesmo de verem a CNN ou a BBC.

“Pela primeira vez na História Moderna, o utilizador está no comando, como consumidor e como produtor”.

Outro exemplo dado por Dan Gillmor é o de Rex Hammock que, a 19 de Fevereiro de 2004, foi introduzido no Old Executive Office Building, em Washington. Hammock debateu com o Presidente Bush sobre variadas questões económicas. À partida, esta história não teria nada de especial, não fosse o facto de Hammock ser cidadão jornalista “nos tempos livres” e de ter publicado informações sobre essa tal reunião que, supostamente, era “à porta fechada”.

Quebrar as barreiras do sigilo é, aliás, outra questão de que Gillmor trata. “Excluir os media dos acontecimentos pode já não querer dizer muito”.
De facto, ao considerar o “cidadão anónimo” como jornalista e veículo de informação, corre-se o risco de simplesmente o código de silêncio deixar de existir. Tudo se poderá saber. Ficará à consciência de cada um.

Apesar deste tipo de perigo, Gillmor considera importante a participação cívica, chegando mesmo a apelidar este facto de “um dos mais saudáveis melhoramentos nos media desde há muito tempo”.
“O cidadão jornalista traz variedade, sai do lugar comum e revela ângulos diferentes.”

Embora aborde desta forma a questão, Gillmor não deixa de levar a reflexão mais longe, falando do papel das forças governamentais e da sustentabilidade do modelo de jornalismo cidadão.

Além dos mais cépticos e conservadores, a expansão do jornalismo cidadão corre o risco de ser comprometida pelos próprios Governos e sociedades económicas com elevado interesse em que a estrutura habitualmente vigente se mantenha. Permitir o fluxo comunicacional a alto nível poderá constituir um perigo para os modelos de negócio que dominam a difusão de informação.
O modelo de citizen journalism é sustentável quando praticado gratuitamente?

Em alguns países, nem a carteira profissional é exigida. Ora isso pode constituir um perigo para a prevalência da essência do jornalismo.
Qualquer um pode então fazer jornalismo? Ou, pelo menos, contribuir para tal sem pedir nada em troca?

Nas palavras de Dan Gillmor: [a business model can’t say: “You do all the work and we’ll take all the Money, tank you very much”. There must be clear incentives for participation, and genuine incentives require resources.]
Por outro lado, colocar totalmente de parte a possível ajuda de um “comum” estará correcto? Deverá o jornalismo viver numa espécie de redoma de vidro em que simultaneamente busca a sua matéria-prima no cidadão comum e ignora diversos aspectos que este lhe pode oferecer?
Citando Manuel Pinto, podemos dizer que: “a cidadania está para o jornalismo, assim como o zumbido está para o moscardo”.

Os jornalistas devem trabalhar em conjunto com os cidadãos. Esquecer o seu método? Não! Pôr de parte a verificação da veracidade, da justiça ou da rectidão, ignorando o código deontológico? Não!
O que os “profissionais da informação” devem fazer é extrair aquilo que a audiência lhes pode dar. Confirmá-lo e aproveitá-lo para enriquecer as notícias, para aperfeiçoar a informação que divulgam.

Jornalistas e cidadãos não precisam de embandeirar em arco propósitos diferentes. Muito pelo contrário. Podem ser as duas faces da mesma moeda.
Manuel Pinto fala-nos da arrogância no jornalismo, a que chama “um pecado capital”.
M.P. refere que “a qualidade do jornalismo depende em grande medida da acção e do modo de estar dos media. Mas depende em grau não menor do escrutínio público.”

No seu entender, os media devem estar receptivos à abordagem pública. De outra forma, o cidadão poderá recuar e inibir-se de apresentar a realidade que conhece e que pode ser útil para a construção da realidade dos demais. “À arrogância dos media pode corresponder uma simétrica arrogância dos cidadãos.”

Já Rupert Murdoch acredita que a evolução do conhecimento leva a que o poder da informação se esteja a escapar das mãos dos jornalistas enquanto Driscoll, ex-chefe do Bóston Globe vê esta partilha como uma oportunidade de obter informação, seja de que tipo for (“estamos a ampliar a definição do que são notícias, quando vistas pela perspectiva das pessoas comuns que têm experiências de vida, qualquer coisa para partilhar. É informação, seja qual for a maneira como a encararmos”).

À parte qualquer consideração teórica sobre o tema, podemos nós mesmos debruçar-nos sobre o assunto.

Ser jornalista é caminhar em pé de igualdade com as outras pessoas em busca da informação? Não é ter um estatuto singular? Qualquer um, só porque é uma pequena peça do grande puzzle que é o mundo e a sua dinâmica, pode considerar-se jornalista?

A meu ver, ser jornalista, ver delegadas em si as funções de eduzir o que é notícia e transmiti-lo, implica competências que vão muito para além da simples vivência quotidiana. Se qualquer um pode estar apto para captar os alertas externos, para ter “o faro jornalístico”, para exercer a profissão de jornalista na real ascensão da palavra, é preciso delapidar essas proficiências. De outro modo, todos podíamos ser arquitectos ou designers. Porque todos temos opinião sobre tudo. No entanto, isso não faz de nós especialistas. Usando uma expressão tão popular, “cada macaco no seu galho”.

Considerar que somos todos jornalistas seria deitar a perder a estrutura jornalística. Reflictamos. Se qualquer um “despejasse” informação a seu bel-prazer, perderíamos a noção do que é importante ou, pelo menos, ficaríamos privados de um fio condutor que todos os dias nos facilita a construção da tal realidade de que anteriormente falei.

É certo que por diversas vezes, o cidadão pode estar numa situação privilegiada (caso dos atentados) que lhe permite ver in loco o que aconteceu. Isso facilitará a produção do trabalho jornalístico. O jornalista terá na testemunha um aliado para construir com maior exactidão o relato do sucedido. Mas dizer que com o despoletar deste jornalismo cidadão, o jornalismo que acompanha as nossas vidas deixará de existir parece-me ser ilusão dos mais visionários.
A confluência entre a informação dos cidadãos e as competências dos jornalistas sempre existiu. Afinal de contas, onde é que o jornalista busca a informação? Não é nas fontes?

O que está a acontecer é que as novas tecnologias tornaram o mundo num enorme livro aberto em que cada um pode escrever, nem que seja para deixar um pequeno comentário ao que passa diante dos seus olhos.

À distância de um clique, temos a possibilidade não só de consultar como sermos nós próprios “fazedores” de blogues ou sites (por exemplo). Os vídeos que até então apenas víamos em casa entre amigos, ou as fotografias que meia dúzia de pessoas que conhecemos pede para ver, podem agora ser disponibilizados a alguém que está no outro canto do mundo. Os fluxos comunicacionais tomaram proporções gigantescas.

Na Internet, expostos a tanta informação que pode ir do “excelente” ao “perigoso lixo”, caber-nos-á ter o discernimento para distinguir o útil do acessório, o real do falacioso.

Muito provavelmente, daqui por algum tempo, ser-nos-á difícil perceber se um determinado trabalho que chega até nós foi elaborado por um jornalista ou por um “amador”. Mas tudo resume-se a uma questão de consciência crítica.

Mesmo não estando directamente relacionado, podemos falar das situações de trabalho de pesquisa. Quando procuramos algo, nem tudo o que encontramos é matéria profícua. Necessitamos de separar o que realmente nos interessa e ter a noção exacta de que o nosso trabalho não fica por aqui. É ainda forçoso verificar a sua veracidade. No fundo, fazemos um pouco o trabalho de gatekeeper, à semelhança do jornalista.

As novas tecnologias podem e devem ser usadas para facilitar a comunicação entre cidadãos e jornalistas e para torná-la na união perfeita (tanto o quanto possível) de duas mãos. Usá-las para tomar de assalto outro posto que não o seu, só comprometerá a função básica de informar e colocará, possivelmente, numa situação delicada quem tem a ousadia de fazê-lo. Não só porque constituirá uma alternativa muito pouco viável à “arte de informar”, como anteriormente citei, mas também porque se traduzirá num risco para o cidadão. Problemas de ordem ética, de segurança física, moral e jurídica podem ser levantados. O facto do cidadão arrecadar o papel principal sem duplos pode levá-lo a “quedas” de última hora; pode levá-lo a entrar por um complexo labirinto de dificuldades.

Quer isto dizer que no que toca à produção das notícias o cidadão deve permanecer inerte? Não! O que considero é que tem o dever de ajudar o jornalista mas que o papel final cabe sempre ao último. É ele que tem de trabalhar a informação. O cidadão ou aquilo que possa ter para oferecer nunca deixará de ser fonte.

O jornalista insere-se nesta aldeia global e surge como figura sem a qual, irremediavelmente, não vivemos. O jornalista dá-nos uma construção parcial de uma realidade. O cidadão, cada vez mais, pode dar-lhe fragmentos dessa realidade percepcionada. Juntos, podem caminhar pela simplicidade e pelo entusiasmo que o jornalismo, enquanto profissão intimamente ligada à nossa existência, nos tem para oferecer; unidos em papéis opostos que se complementam.
O jornalismo tradicional não deixará de existir. De outra forma, perderia a designação de “jornalismo”.

Posso estar redondamente enganada. O tempo mo dirá. Por agora, resta-me esperar que cada um “descole” do sofá, que sinta que a sua voz, apesar de tudo, é importante. Sintamos, como diria Gillmor, “o poder de numerosos olhares”.
Referências bibliográficas:
Livros:

GILLMOR, Dan, Nós, O Media, Editorial Presença

TADDEI, Roberto Romano, FOSCHINI, Ana Carmen, Você faz a notícia, Colecção Conquiste a Rede - jornalismo cidadão, Brasil
Internet:



0 Comments:

Post a Comment

<< Home